terça-feira, março 22

Miséria e Companhia,


Um sonho de esquecimento e a perspectiva de que tudo pudesse dar certo agora, ou quase isso. O vento da rua ondulava as cortinas. Eu não tinha sono, nem vontade de persegui-lo. Aproximei-me da varanda e me debrucei. até ver a luz vaporosa que derramavam os lampiões na Puerta del Ángel. A figura recortava-se num retalho de sombra, deitado sobre o calçamento da rua, inerte. O tênue pestanejar âmbar da brasa de um cigarro refletia em seus olhos. Vestia uma roupa escura, uma das mãos afundada no bolso da jaqueta, a outra acompanhando o cigarro que largava um rastro de fumaça azul em volta de seu perfil. Observava-me em silêncio, o rosto oculta na contraluz da iluminação da rua. Permaneceu ali pelo espaço de quase um minuto, fumando sem pressa, com o olhar fixo no meu. Em seguida, ao se ouvirem as badaladas da meia-noite na catedral, a figura assentiu de leve com a cabeça, uma saudação atrás da qual intuí um sorriso que não podia ver. Quis corresponder, mas estava paralisado. A figura virou-se e a vi se afastar, mancando ligeiramente. Em qualquer outra noite eu teria reparado muito pouco na presença daquele estranho, mas assim que o perdi de vista na neblina senti um suor frio na testa e o ar me faltou. E essa foi só a primeira noite de muitas em que eu sentira o pouco da essência do medo.

La Sombra del Viento

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